Em celebração ao Dia da Consciência Negra, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ) realizará, no dia 19 de novembro de 2025, às 14h, o “CAU/RJ e Consciência Negra”, um evento inédito dedicado à valorização da memória afro-brasileira na formação das cidades. A atividade, que acontece na sede do Conselho, tem como tema central “A Pequena África e o Cais do Valongo: testemunhos materiais históricos da diáspora africana no Brasil” e propõe uma reflexão sobre o papel da arquitetura e do urbanismo na preservação e na valorização dos espaços de memória, fundamentais para a construção da identidade brasileira.
O encontro reunirá palestrantes de destaque, entre eles: o Secretário Municipal de Diversidade e Direitos Humanos, Edson Santos; a presidente do Instituto Pretos Novos, Merced Guimarães dos Anjos, o professor e diretor do Instituto Pretos Novos, Cláudio Honorato, o arquiteto e urbanista, autor da trilogia “Cemitério dos Pretos Novos do Valongo – Uma Jornada Impactante pela História da Escravidão no Brasil”, João Carlos Nara, e Leonardo Campos, Gerente do Iniciativa Valongo, do BNDES.
A iniciativa marca um passo importante do CAU/RJ na promoção de um urbanismo comprometido com a diversidade, a memória e a justiça social, reforçando a importância de reconhecer o passado para construir cidades mais humanas e igualitárias.
Para citar este artigo: NARA JR., João Carlos; SANTOS, Andressa Ramos dos. Dossiê sobre o Cais do Valongo na Hemeroteca Digital Brasileira. Freguesia de Santa Rita do Rio de Janeiro, 2023. Disponível em: <https://doi.org/10.58079/11t1j>.
O cotidiano da escravidão no Rio de Janeiro oitocentista. DEBRET, Jean-Baptiste. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Tome deuxième. Paris: Firmin Didot Frères, 1835, página 189. 1 álbum (II, 162p. I [1] 70 f. de estampa), il.; col. (litograv.), mapa, 52,6cm. Disponível em: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon393053/icon393053.pdf. Acesso em: 28 dez. 2022.
1. Apresentação
1.1. A freguesia de Santa Rita
A instalação de um complexo escravagista no Rio de Janeiro foi uma necessidade para que funcionasse o tráfico negreiro no sul do Brasil durante o período colonial. O sistema devia prever, ao menos, as seguintes instâncias: fiscalização sanitária, quarentena, controle alfandegário, lojas, e um cemitério exclusivo para os pretos novos, isto é, para os africanos escravizados recém-chegados.
Antes de 1774, o comércio de “grosso trato” (de atacado, incluído o tráfico de escravos) ocorria na Rua Direita, atual Rua Primeiro de Março, no Centro do Rio. Os africanos que não resistissem ao translado para a América e morressem antes da venda, desde 1741 eram sepultados no cemitério de Santa Rita, no Sítio Valverde, a poucos metros da alfândega carioca.
Mas, a partir de 1774, e até o fim oficial do tráfico escravagista em 1830, o comércio de grosso trato passou a operar no subúrbio do Valongo. Tanto o Valverde quanto o Valongo eram regiões administradas pela freguesia de Santa Rita, a terceira a ser criada na cidade, cujo território corresponde hoje, aproximadamente, ao Porto Maravilha (cf. NARA JR., 2024).
No caso específico do mercado doValongo, cerca de um milhão de africanos passaram por ali, em 57 anos de funcionamento, a fim de abastecer de mão de obra as economias agrícola e aurífera em território fluminense, mineiro, e em outras regiões do sul do Brasil.
A principal entrada marítima na enseada do mercado se dava pelo Cais do Valongo, que a UNESCO proclamou Patrimônio Mundial em 2017, na categoria de patrimônio sensível. Isto significa que ele deve simbolizar todo o sistema envolvido no tráfico em massa de escravos africanos para as Américas, reconhecidamente um crime contra a humanidade (cf. Declaração da Conferência Mundial contra o Racismo, 2001, § 3º).
Além do Cais, outros achados arqueológicos de vulto também atraíram a atenção para a região, particularmente o reencontro dos dois Cemitérios de Pretos Novos: o do Valongo em 1996, e o de Santa Rita em 2018. Por esses motivos, o atual Porto Maravilha, no Rio de Janeiro, constitui um lugar privilegiado para o estudo da história da escravidão e para a celebração da memória afro-brasileira.
1.2. Compromisso com a memória
O manual para sítios e itinerários de memória da UNESCO (2018, p. 12) fala de um “compromisso com a memória” das pessoas que foram escravizadas, e de um seu consequente “direito à história”. Nesse sentido, este guia de fontes, criado a partir da massa documental da Hemeroteca Digital da Fundação Biblioteca Nacional, pretende facilitar a pesquisa e promover a produção de novos conteúdos, a divulgação científica e a solidez acadêmica, mediante o inventário organizado de todas as ocorrências relativas ao Valongo.
Este trabalho — realizado com a cooperação da Coordenação de Pesquisa do Centro de Pesquisa e Editoração, e da Coordenação da Biblioteca Nacional Digital do Centro de Processamento e Preservação — vai ao encontro dos atuais desafios das políticas afirmativas e da promoção da História e Cultura Afro-Brasileira, nos termos da Lei Federal nº 10.639/2003.
A pesquisa contou com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro – FAPERJ, em expresso cumprimento do artigo 8º da Lei Estadual nº 8.105/2018, que prevê que as “pesquisas arqueológicas, históricas e de demais áreas do conhecimento que tratem da questão da Diáspora Africana terão incentivo do Estado do Rio de Janeiro, mediante editais e programas de valorização do conhecimento, através de programas da pasta da Ciência e Tecnologia”.
2. Onde é o Valongo
2.1. O porto do Rio de Janeiro
Durante o século XVIII, a região de marinha ao norte da cidade do Rio de Janeiro assumiu e consolidou gradativamente a função portuária que exerce até os dias de hoje.
A pedra fundamental da matriz de Santa Rita, situada no limite da cidade do Rio de Janeiro colonial, foi lançada em 1719, já apontando a intenção de transformar o extenso território extramuros, correspondente à marinha dos sacos do Valongo, da Gamboa e do Alferes, em uma dependência imediata da urbe carioca.
Esta planta mostra as freguesias urbanas do Rio de Janeiro oitocentista: Sé (ocre), Candelária (amarelo), Santa Rita (laranja), São José (rosa), Sant’Ana (azul). Santa Rita já tinha sido desmembrada para a criação da freguesia de Sant’Ana. Ocorre na planta uma rara inversão da toponímia, em que a Praia do Valongo é chamada erroneamente de Valonguinho, e vice-versa. [Planta do Rio de Janeiro, A Capital do Brasil.] Eugéne Hubert de La Michelerie. Litogravura de Steinmann, 1831. Rio de Janeiro, 1831. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_cartografia/cart326112/cart326112.html. Acesso em: 28 dez. 2022.
Por ser uma região isolada do rossio público, mas também distinta do sertão com as suas fazendas, aquela marinha pareceu propícia, desde fins do século XVII, como subúrbio apto para a setorização social e a especialização econômica exigidas pelo comércio atlântico. Já em 1726, o rei de Portugal ordenava que se deixassem livres de construção as referidas praias, desde a cidade até a “ponte do Valongo” (cf. ARQUIVO HISTÓRICO ULTRAMARINO – AHU [POR]. Projeto Resgate: Série Rio de Janeiro – Avulsos, cx. 18, doc. 1985).
A antiga demanda de remover o comércio de atacado da área urbana do Rio de Janeiro só se concretizou integralmente no último quartel do século XVIII. Mas ainda no século XIX o Valongo era descrito como sendo habitado “por indivíduos pescadores e (à exceção de mui poucos no todo, que presentemente têm feito ali a sua vivenda, e subsistem mais florentes) quase miseráveis” (PIZARRO E ARAÚJO, 1822, v. 5, p. 298).
Neste voo de pássaro é possível distinguir a entrada da Baía de Guanabara à esquerda, com o Pão de Açúcar, e a cidade à direita. Notam-se claramente os dois portos: em primeiro plano o porto de passageiros perto da Ilha das Cobras, e o porto de cargas na enseada do Valongo, a norte da urbe. [Panorama da cidade do Rio de Janeiro.] Bauch, Emil, 1823-c.1890. Vogler, J., 1873. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_iconografia/icon255675/icon255675.html. Acesso em: 28 dez. 2022.
2.2. A Praia e a Rua do Valongo
Segundo o geógrafo Elmo Amador, o Valongo era um tômbolo que unia o morro do Livramento à Ponta da Saúde, espraiando-se a oeste para a Gamboa e a Leste até as falésias do morro da Conceição, chamadas Ponta do Sal, onde havia pequenos intervalos arenosos: o Valonguinho, a Saúde, a Prainha. Noronha Santos compartilha da opinião ao prefaciar as Memórias de Luís Gonçalves dos Santos, o Padre Perereca. A atribuição é contestada por Vivaldo Coaracy (2008, p. 237), que disse ser o Valongo o vale hoje correspondente à rua Camerino, embora sem justificar seus motivos. Ora, segundo o Padre Perereca, a rua do Valongo só recebeu esse nome em 1760 (SANTOS, 2013, p. 159). No entanto, o nome Valongo já constava da documentação desde 1701.
Não se encontra a toponímia “Valongo” antes do século XVIII. Aliás, parece que a Praia do Valongo, isto é, a orla que unia o morro do Livramento à Ponta da Saúde, chamava-se anteriormente “Praia das Pombas” (Arquivo Nacional, 1º Ofício de Notas, v. 78, p. 28v, 27/9/1709). Seria possível relacionar, de forma artificial, as antigas ruas do Valongo (atual Rua Camerino), da Valinha (trecho da Avenida Marechal Floriano entre a Rua Uruguaiana e a Avenida Passos) e da Vala (Rua Uruguaiana), como se a toponímia dos três logradouros fizesse referência aos canais que por ali circularam. No entanto, a afinidade entre esses antigos nomes é muito tardia para afirmar que a denominação Valongo tivesse sido dada à rua Camerino com anterioridade, para só depois passar a referir o tômbolo da Gamboa.
2.3. O Valongo hoje: Pequena África
Expressão de resistência, reforço de significado, combinação articulada, ressemantização: são algumas soluções industriosas que revelam o processo de construção de histórias, da cristalização de significados, da marginalização social de certos segmentos, da consagração de experiências individuais, da criação de sínteses ou da afirmação de antíteses.
No caso do Valongo, foi no final do século XVIII, com a instalação do porto de cargas e do tráfico negreiro, que aquele subúrbio se tornaria definitivamente caracterizado pela concentração da presença africana, antecipando em um século o nascimento da “Pequena África”, localizada pelo pintor e compositor Heitor dos Prazeres na extinta Praça XI. Antes da Praça XI, porém, a amálgama cultural que deu origem ao samba estivera na enseada do Valongo, na Pedra do Sal, sítio em que existiu a primeira senzala do Rio de Janeiro.
2.4. Patrimônio Mundial e o seu entorno
Sucessivas descobertas arqueológicas e movimentos sociais e políticos trouxeram o Valongo ao primeiro plano do interesse internacional:
A Pedra do Sal, tombada a nível estadual em 1984, recebeu a demarcação de um quilombo em 2005 e se tornou Área de Especial Interesse Cultural do município em 2014. Pertencia à Ordem Terceira de São Francisco da Penitência e albergou a mais antiga senzala do Rio de Janeiro, que atendia às necessidades do “Trapiche da Ordem”. A toponímia remete ao ponto final do “caminho do sal” que começava nas salinas da Lagoa de Araruama e ia até o Rio de Janeiro, ou por terra até Niterói, ou por mar através de Cabo Frio. É considerada o berço do samba.
Seguidamente, a descoberta fortuita do Cemitério de Pretos Novos do Valongo, em 1996, na residência do casal Merced e Petrúcio Guimarães, e a fundação no local do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos em 2005, ocasionaram a inserção da região na “Rota do Escravo” da UNESCO. Voltaram a se fazer prospecções arqueológicas no local a partir de 2016, deixando-se à mostra remanescentes humanos ali enterrados.
Em 2011 ganhou destaque o Cais do Valongo, redescoberto nas pesquisas arqueológicas realizadas na área portuária do Rio de Janeiro. Construído em 1811, o Cais público atendeu ao comércio transatlântico de africanos por apenas vinte anos. Seu porte avantajado facilitava a chegada de mercadorias mesmo em preamar e, conforme o levantamento realizado nesta pesquisa, servia inclusive como ponto conserto e de compra e venda de embarcações. Foi remodelado em 1843 para a chegada da Imperatriz Teresa Cristina. É igualmente importante para a memória da imigração na segunda metade do século XIX.
Panorama do Cais do Valongo, após a sua transformação em Cais da Imperatriz por ocasião da chegada de Dona Teresa Cristiana em 1843. PUSTKOW, Frederico. Caes da Imperatriz. Saude. Rio de Janeiro, RJ: G. Leuzinger, [18–]. 1 grav., litograv., pb, 13,7 x 22 cm em papel 24,5 x 30,6 cm. Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_iconografia/icon1521613/icon1521613.jpg. Acesso em: 28 dez. 2022.
Por fim, em 2018, por ocasião da instalação da Linha 3 do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), prospecções arqueológicas feitas pouco antes do início das obras trouxeram à luz fragmentos de faiança, porcelana e cachimbos, mas também de ossos humanos do Cemitério de Pretos Novos do Largo de Santa Rita. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional previu o salvamento dos remanescentes humanos que eventualmente aflorassem quando os trilhos fossem instalados. No entanto, a Comissão Pequena África, que reunia diferentes associações para a promoção da igualdade racial, negou peremptoriamente que se fizesse o resgate dos restos mortais, o que foi acatado com relutância pelo órgão de tutela. Como compensação, o Largo de Santa Rita recebeu um novo agenciamento paisagístico, com a remoção de uma banca de jornais e a decoração do piso com rosas negras.
3. O complexo do Valongo
3.1. Do Valverde ao Valongo
O Marquês do Lavradio, vice-rei de 1769 de 1779, ao entregar o cargo a Luiz de Vasconcelos e Souza, relatou o seu esforço para transferir o tráfico negreiro da cidade do Rio de Janeiro, de próximo ao Sítio Valverde, para o então subúrbio do Valongo (cf. Relatório, 19/6/1779 in:Revista do IHGB, Rio de Janeiro, t. 4, v. 4, nº 16, 1842, p. 450s).
O Marquês tinha escrito em 1774 acerca da necessidade do total encerramento dos pretos novos no Valongo: “sem poderem jamais saírem daquele lugar para esta Cidade, por mais justificados motivos que hajam, e nem ainda depois de mortos, para se enterrarem nos cemitérios da Cidade” (Arquivo Nacional, Códice 70, v. 7, Carta do Marquês do Lavradio, 12/4/1774, p. 232).
No contexto mundial, o Rio de Janeiro foi a cidade na qual o modelo administrativo docomplexo escravagista teve o mais amplo desenvolvimento, vindo a ser replicado em outros portos brasileiros que também operavam esse tipo de comércio. O entreposto incluía fisco e quarentena, mercado e cemitério de pretos novos.
3.2. Lazareto e Alfândega
A Alfândega fora instituída no Rio de Janeiro em 1566 como estação arrecadadora pioneira. Embora alguns autores pretendam que os escravizados desembarcavam diretamente na Alfândega (cf. TAVARES & alii, 2020), a ordem do processo de entrada no Rio de Janeiro está atestada documentalmente (cf. FLORENTINO, 2005, p. 46).
Em alto mar, junto à ribeira da cidade, ou então próximo da Ilha de Boa Viagem, na banda de Niterói, do outro lado da baía de Guanabara, o vereador responsável pela fiscalização sanitária fazia a “vistoria da saúde” e determinava o tempo de quarentena dos escravos novos recém-chegados de África.
A quarentena se realizava na Ilha de Bom Jesus da Coluna ou na Ilha das Enxadas, até que ficou determinada a instalação de um Lazareto na Gamboa, por alvará régio de 22 de janeiro de 1810.
Só quando vencido o prazo de quarentena é que ocorria, enfim, o controle alfandegário. Em seguida, os escravos eram postos à venda nas lojas.
3.3. Cais do Valongo
A construção do Cais do Valongo em 1811 foi uma iniciativa de Dom João VI. Diferentemente dos demais trapiches privados de madeira que pagavam laudêmio pela exploração da marinha no Rio de Janeiro, o Cais do Valongo, feito de pedra, foi construído com dinheiro público, levantado por meio de um imposto cobrado aos traficantes de escravos, o que lhe confere um significado peculiar no contexto escravagista (cf. SOARES, 2013).
Sua localização é defronte à rua do Valongo (atual Rua Camerino), onde estavam instaladas as lojas. Presume-se que, realizado o controle alfandegário, os escravizados eram levados por mar até atracarem ali, diante dos depósitos. Desse modo, em um momento em que o tráfico negreiro estava vedado no Atlântico Norte, o Cais do Valongo significou tanto a ampliação das relações com a África via Atlântico Sul, quanto o fortalecimento geral da infraestrutura comercial da corte do Reino Unido e, depois, do recém-criado Império do Brasil.
A proclamação do Cais como Patrimônio Mundial pela UNESCO o apontou como um potencial laboratório de pesquisas multidisciplinares e um âmbito para a promoção do patrimônio cultural e de empenho pela reparação das sequelas sociais da escravidão. Não obstante, algumas vozes se alçaram contra a sua elevação, afirmando que são raras as informações sobre ele (cf. TAVARES, 2018). De fato, a pesquisa acadêmica sobre a sua criação, operação, desaparição e redescoberta é surpreendentemente escassa.
3.4. Armazéns e casas de engorda
Desde 1722, com o aumento das reclamações dos senhores de engenho e dos lavradores contra a atuação de atravessadores no mercado de escravos da rua Direita (atual Rua Primeiro de Março), a Câmara do Rio de Janeiro passou a insistir na necessidade de transferi-lo ao Valongo.
Mas foi apenas em 1758 que um acórdão superou as tentativas de embargo dos traficantes que se sentiam prejudicados pela mudança da rua Direita para o Valongo. Muitos homens de negócio ainda permaneceram com lojas abertas na cidade à espera de outro recurso interposto no Tribunal da Relação, o qual, aliás, não recebeu provimento.
A proibição do comércio na área urbana seria reeditada pelo Senado da Câmara em 1766, por causa da resistência tácita dos comerciantes e da inclusão de mais escravos para a venda, oriundos da Companhia de Pernambuco e Maranhão.
A disputa judicial perduraria até a chegada do Marquês do Lavradio, o qual, definitivamente, levaria o mercado para o Valongo. A escritora britânica Maria Graham (1990, p. 274) viria a conhecer a região, deixando constância de suas impressões:
Todas as casas desta longuíssima rua são depósitos de escravos [em que] vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele o sinal da sarna recente. Em alguns lugares as pobres criaturas jazem em tapetes, evidentemente muito fracas para sentar-se.
Conforme o direito eclesiástico, os fiéis podem escolher onde ser enterrados: ou no cemitério da sua paróquia, ou no cemitério de alguma irmandade da qual façam parte. Os recém-chegados de África, porém, não tendo domicílio, não pertenciam a nenhuma freguesia nem tiveram a oportunidade de se incorporarem às associações piedosas. Por isso, os escravos novos eram tratados como indigentes quando morriam antes de serem vendidos.
Algumas instituições, como a Santa Casa de Misericórdia, realizaram o enterro dos pretos novos pelo menos até 1741. Desde então, tal função passou à responsabilidade da igreja de Santa Rita, matriz da freguesia em que se encontra o porto de cargas do Rio de Janeiro.
Pouco menos de três semanas depois da decisão do Marquês do Lavradio de transferir o mercado de dentro da cidade para o subúrbio do Valongo, o pároco de Santa Rita arrendou um imóvel a 30 de abril de 1774, a fim de servir como novo cemitério para os pretos novos. O terreno do Cemitério do Valongo tinha apenas 500 metros quadrados de área, sendo três vezes menor que o Cemitério do Largo de Santa Rita, mas tinha a vantagem de ser próximo do porto de cargas (cf. NARA JR., 2021).
A instalação do Lazareto na Gamboa, alguns anos depois, faria com que a freguesia de Santa Rita, que já possuía uma cadeia, ficasse tradicionalmente associada aos chamados “usos sujos” — porto, prisão, hospital, cemitério.
Com o tempo, a situação precária do Cemitério do Valongo acarretaria representações da vizinhança requerendo a sua nova transferência (cf. FBN/MSS II-34,26,3). Mas isto, de fato, nunca ocorreu. Foi graças à extinção oficial do tráfico africano, previsto pela Carta de Lei de 23 de novembro de 1826, de D. Pedro I, cujo prazo de aplicação foi adiado até 13 de março de 1830, que o Cemitério de Pretos Novos perdeu o seu sentido.
A última pessoa anônima foi ali enterrada a 4 de março de 1830 (cf. Arquivo da Cúria Metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro, Óbitos de Santa Rita, dezembro de 1824 a março de 1830). Já no segundo semestre de 1833, consta do Livro da Décima Urbana a apropriação do imóvel por Antônio Soares Pinto (cf. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, BR RJAGCRJ.CM.DU.0118, 1833-1834, v. 6, fl. 47).
Os mortos eram transportados em um banguê. Os africanos escravizados que morriam antes da venda e que, portanto, ainda não tinham residência numa paróquia, eram tratados como indigentes e enterrados em um Cemitério de Pretos Novos, sob a jurisdição da Freguesia de Santa Rita, quando não na Santa Casa de Misericórdia. CHAMBERLAIN, Henry. Views and costumes of the city and neighbourhood of Rio de Janeiro. Londres, 1822. Página 66; Disponível em: http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_iconografia/icon393039/icon393039.pdf. Acesso em: 28 dez. 2022.
4. Fontes jornalísticas
4.1. Recorte temporal e temático da pesquisa
Esta pesquisa reuniu e analisou todas as publicações (matérias de jornais e classificados) existentes na Hemeroteca Digital sobre a região do Valongo no Rio de Janeiro, com foco no Cais do Valongo, no período de 1800 até 1830, ano em que o tráfico foi oficialmente suspenso, prosseguindo por alguns anos subsequentes.
As formas de escrita sobre a região mudavam a cada publicação. Foram encontradas inúmeras variantes dentro de um mesmo diário: Valongo; Vallongo; Caes; Cais. O termo mais usado pelos editores do jornal era Vallongo, com dois LL.
Os termos procurados foram: Rua do Valongo; Cemitério do Valongo; Cais do Valongo; Caes do Valongo; Valongo; Vallongo; Vaiongo; Rua do Livramento.
O conteúdo foi localizado nos seguintes jornais:
Diário do Rio de Janeiro; Correio Braziliense; Gazeta do Rio De Janeiro; Diário Mercantil; Império do Brasil: Diário Fluminense; Annaes do Parlamento Brasileiro; Império do Brasil: Diário da Câmara dos Deputados; O Volatim; Astrea; A Aurora Fluminense: Jornal Politico Litterario; Abelha de Itaculumy (MG); O Spectador Brasileiro; Revista Semanaria; Diário da Camara de Senadores do Imperio do Brasil; Correio do Rio de Janeiro; Jornnal do Commercio; Correio Mercantil; Nova Luz Brazileira; A Voz Fluminense e Luz Brasileira.
4.2. O Diário do Rio (1800-1839)
O Diário do Rio de Janeiro ganha destaque neste dossiê por ter sido a maior fonte de ocorrências sobre o Valongo. Encontram-se nele mais de 5.000 ocorrências sobre a região, a rua e o cais, entre 1821 e 1858. Entre elas, as que mais se repetem — como nos demais jornais — são inúmeros classificados, como o aluguel e a venda de morada de casas, o aluguel ou a procura por ama-de-leite, a venda de escravizados, a fuga de escravos e os leilões.
A primeira publicação encontrada fala da localização de duas pessoas foragidas: “A quem faltarem dois negros de estatura ordinária, dirija-se a rua do Valongo Nº. 44”. Desde essa data, até 1830, limite temporal da pesquisa, foram publicadas cerca de 2.000 notícias sobre o Valongo.
4.3. O Valongo na imprensa estrangeira e alófana
Dois jornais alófanos e um jornal estrangeiro publicaram acerca da região e do cais do Valongo: o Correio Braziliense (de Londres); o L’Écho de L’Amérique Du Sud: Journal Politique, Commercial et Litterarie (do Rio de Janeiro); e o Courrier du Brési Le Courrier du Bresil, Feuilee Politique, Commerciale et Littéraire (do Rio de Janeiro).
O primeiro discorria em 1818 sobre as obras de infraestrutura do Rio de Janeiro, citando “a construcção de caes e rampas entre as quaes se distingue a de Valongo.’’ Clique para ler o texto na íntegra.
O segundo, L’écho de L’amérique Du Sud, por meio de uma análise topográfica, criticava, em 1828, que a zona portuária não dialogava com a cidade. Também denunciava que as obras de urbanização eram feitas sem planejamento nem coordenação. Clique para ler o texto na íntegra.
O terceiro, Courrier du Brésil, é o único jornal que não se encontra no acervo da Hemeroteca Digital, mas na Biblioteca Nacional da Áustria. A publicação em tela divulgava uma nova empresa de máquinas a vapor, a 14 de março de 1829, e convidava os interessados a procurar os empreendedores à rua Princesa do Valongo. Clique para ler o texto na íntegra no Google Books.
4.4. Outras ocorrências interessantes
O jornal Império do Brasil: Diário Fluminense traz uma discussão sobre o fim do comércio de escravos e a abolição da escravatura no contexto pós-independência do Brasil. O autor defende que a escravidão deveria ser abolida no mesmo dia que Portugal reconheceu a independência: “Em rigor de direito, em conformidade de sentimentos com todos os Governos do mundo civilisado, e para accelerar o melhoramento de nossa moral, e industria, deveria a não importação de escravos verificar-se desde o dia do Reconhecimento do Imperio”.
O mesmo jornal, em março de 1929, manifesta a preocupação com a saúde pública perante o estado do Cemitério do Valongo: “não sei que a lei trate de novos Cemiterios futuros; e mesmo quando tratasse de novos, eu não vejo como aquelle do Valongo possa ser remediado, se vale a saude dos habitantes daquelle lugar, senão removendo-o dalli, e fazendo- se hum novo.”
Os Annaes do Parlamento Brazileiro: Camara dos Srs. Deputados, informam que, em uma sessão de 1828, foram criticados os fazendeiros de Minas Gerais, que preferiam adquirir novos escravos ao Valongo do que criar os descendentes dos já adquiridos.
Majoritariamente, as referências ao Valongo procedem de classificados sobre leilões de escravos, vendas, aluguéis, trocas e fugas. Uma edição do Jornal do Commercio ilustra como no Valongo se vendiam não somente os recém-chegados de África, mas também os já abrasileirados (ladinos).
5. Inventário cronológico sobre o Valongo na Hemeroteca Digital
AMADOR, Elmo da Silva. Baía de Guanabara: ocupação histórica e avaliação ambiental. Rio de Janeiro: Interciência, 2013.
______. Bacia da Baía de Guanabara: características geoambientais, formação e ecossistemas. Rio de Janeiro: Interciência, 2012.
COARACY, Vivaldo. Memórias da cidade do Rio de Janeiro: quatro séculos de histórias. Rio de Janeiro: Documenta Histórica, 2008.
FLORENTINO, Manolo (org.). Tráfico, cativeiro e liberdade. Rio de Janeiro, séculos XVII-XIX. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
GRAHAM, Maria. Diário de uma viagem ao Brasil: e de uma estada nesse país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823. Belo Horizonte: Itatiaia, 1990, p. 274.
HONORATO, Cláudio de Paula. Valongo: o mercado de almas da praça carioca. Curitiba: Editora Appris, 2019.
LIMA, Tânia Andrade; SENE, Gláucia Malerba; SOUZA, Marcos André Torres de. Em busca do Cais do Valongo, Rio de Janeiro, século XIX. Anais Do Museu Paulista: História e Cultura Material, São Paulo, 24 (1), p. 299-391, 2016.
LUCCOCK, John. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil tomadas durante uma estada de dez anos nesse país, de 1808 a 1818. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1942.
NARA JR., João Carlos. Fronteiras da Escravidão: da África ao Cemitério de Pretos Novos de Santa Rita no Rio de Janeiro. (Edições do Senado Federal, v. 316). Brasília: Senado Federal, 2024.
______. As Rosas Negras do Cemitério de Pretos Novos de Santa Rita: sinais de um patrimônio invisível. Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, a. 29, n. 29, p. 15-28, 2022.
______. Análise do arrendamento do imóvel do Cemitério de Pretos Novos do Valongo (30 de abril de 1774). Acervo, Arquivo Nacional, Rio de Janeiro, v. 34, n. 3, p. 1-21, set.-dez. 2021.
______. O Rio de Janeiro entre conquistadores e comerciantes: Manoel Nascentes Pinto (1672-1731) e a fundação da freguesia de Santa Rita. Curitiba: Appris, 2019.
PEREIRA, Júlio César Medeiros da Silva. À flor da terra: o cemitério dos pretos novos no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garamond; Prefeitura do Rio de Janeiro, 2007.
PIZARRO E ARAÚJO, José de Souza Azevedo (monsenhor). Memórias históricas do Rio de Janeiro e províncias anexas à jurisdição do vice-rei do Estado do Brasil, dedicadas a El-Rei o Senhor D. João VI. Rio de Janeiro: Typografia de Silva Porto, 1822, 8 v.
RABHA, Nina Maria de Carvalho Elias. Cristalização e resistência no Centro do Rio de Janeiro. Revista do Rio de Janeiro, Niterói, EDUFF, dez., 1985.
SANTOS, Luís Gonçalves dos [Padre Perereca]. Memórias para servir à História do Reino do Brasil. Brasília: Edições do Senado Federal, 2013.
SCHWARCZ, Lilia Moritz; GARCIA, Lúcia (org.). Registros escravos: repertório das fontes oitocentistas pertencentes ao acervo da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2006.
SOARES, Carlos Eugênio Líbano. Geografia histórica da região do Valongo, 1713-1904. Acervo, Rio de Janeiro, v. 29, n. 1, p. 150-161, jan.-jun. 2016.
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TAVARES, Reinaldo Bernardes. O Valongo através de um outro olhar: Arqueologia da paisagem do complexo escravista do Rio de Janeiro no Século XIX. Tese (Doutorado em Arqueologia) — Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, 2018.
______; PINTO, Andrea de Lessa; CARVALHO, Claudia Rodrigues. Paisagem, morte e controle social: o Valongo e o cemitério dos pretos novos no contexto escravocrata do Rio de Janeiro nos séculos XVIII e XIX. Paisagens Híbridas, Rio de Janeiro, v. 1, n. 1, p. 132-161, 2018.
______; CARVALHO, Claudia Rodrigues; PINTO, Andrea de Lessa. Da alfândega ao Valongo: A entrada dos cativos africanos no Rio de Janeiro no século dezenove sob uma nova perspectiva historiográfica. Latin American Antiquity, v. 31, n. 2, p. 1-18, 2020.
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VASSALLO, Simone Pondé; CICALO, André. Por onde os africanos chegaram: o cais do Valongo e a institucionalização da memória do tráfico negreiro na região portuária do Rio de Janeiro. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 21, n. 43, p. 239-271, jan./jun. 2015.
VV.AA. Valongo Wharf Archaeological Site: proposal for inscription on the World Heritage List. Rio de Janeiro: 2016.
7. Créditos
7.1. Financiamento
7.2. Equipe do projeto
Produção intelectual, textual, audiovisual e curadoria: Dr. João Carlos Nara Jr. (orientador) Andressa Ramos (bolsista de Iniciação Científica da FAPERJ)
A temática da hodologia, conforme apresentada no III Seminário Internacional em Memória Social (ocorrido na UniRio em 2018), foi vertida no segundo capítulo do livro, denominado Hodologia da Diáspora Africana na Freguesia de Santa Rita.
O livro explora as dificuldades para a a construção de uma memória da diáspora africana com base material na região portuária da cidade do Rio de Janeiro e aponta as relações complexas do turismo com os lugares de memória.
O recurso aos dados fundiários do Rio de Janeiro, conservados no Arquivo Nacional, elucidou questões abertas desde a descoberta do Cemitério de Pretos Novos do Valongo em 1996, com destaque para sua data de início, dimensões, situação urbana e relação com a freguesia de Santa Rita.
Planta da Cidade de Saõ Sebastiaõ do Rio de Janeiro, Com as súas Fortifficaçoins, de João Massé (1713)
Você sabia que o Rio de Janeiro já teve um muro, que separava a área urbana do seu rossio?
O projeto de 1713 circunscrevia o arrabalde do Morro do Castelo, ou Várzea do Carmo, ou freguesia da Candelária, no atual Centro do Rio, separando a urbe da sua área alodial, isto é, o rossio entre a atual Rua Uruguaiana e o Campo de Sant’Ana.
O curso online, promovido pelo Centro Loyola da PUC-Rio, tratará dos três vetores da ocupação e urbanização do Rio de Janeiro durante o período colonial, com ênfase na participação da Igreja nessa dinâmica.
Para isso, serão explicadas as distintas categorias de fiéis católicos e o papel que cada uma delas desempenhou na implantação do Rio de Janeiro, a começar pela fundação da cidade no século XVI, com a disputa entre franceses e portugueses pela Guanabara.
O curso contemplará tanto a instalação das primeiras ordens religiosas nos quatro morros da ocupação original, quanto a atuação dos “padres fazendeiros” no século XVII.
Seguidamente, será abordada a criação das freguesias urbanas e rurais por parte da administração eclesiástica secular, durante o período setecentista, com particular atenção à questão escravagista na freguesia de Santa Rita.
Será esmiuçada, por fim, a participação das devoções e irmandades leigas na ocupação do velho rossio, para além do muro idealizado após as invasões francesas de 1710 e 1711.
QUANDO: Segundas-feiras. Dias 14, 21 e 28 de setembro e 5 de outubro de 2020, das 19h às 21h.
A sessão mensal de dezembro do IHGRJ será especial, com uma intensa programação e a participação de ilustres convidados que vão falar da paisagem cultural carioca: CONFIRA.
A segunda edição do Seminário Morte, Arte Fúnebre e Patrimônio: interlocuções, lugares e documentos post mortem ocorrerá nos dias 16 e 17 de outubro de 2019 no Centro Cultural de Ciência e Tecnologia da UFRJ, uma realização do Grupo de Pesquisas Paisagens Híbridas (EBA/UFRJ), do Grupo de Estudos de Arquitetura Cemiterial (EAU/UFF) e do Laboratório de Ensino de História (Universidade Federal de Pelotas).
O Seminário pretende alinhar argumentos que estruturam as reflexões gerais em torno da natureza e limites do conhecimento humano no que diz respeito à morte, aos ritos, às práticas culturais dos cuidados dados aos mortos, à certificação do cadáver como documento e às paisagens constituídas com base nos fatos que definem o universo físico e metafísico no âmbito da finitude humana.
Na mesa do dia 17, às 10h, será apresentada a comunicação As Rosas Negras do Cemitério de Pretos Novos de Santa Rita: sinais de um patrimônio invisível, que tem o seguinte resumo:
No Largo de Santa Rita, no Centro do Rio de Janeiro, houve durante o século XVIII um cemitério para africanos escravizados recém-chegados, que morreram antes de ser vendidos. Em 1774 o tráfico negreiro e seu respectivo cemitério foram transferidos ao Valongo, subúrbio pertencente à mesma freguesia de Santa Rita. O antigo cemitério foi esquecido, mas a recente instalação do VLT carioca no Largo de Santa Rita ocasionou uma contestação dos movimentos sociais sobre a legitimidade das pesquisas arqueológicas na região. Como sucedâneo à necessária rememoração desses mortos, o IPHAN propôs a representação de rosas negras no chão do cemitério, que continua servindo de logradouro público. A análise das contradições políticas do episódio e o estranhamento diante da não-paisagem de Santa Rita reclamam da academia e das instituições públicas respostas mais robustas, cujas linhas serão sugeridas na conclusão.
No Simpósio Temático 47 (Residência Pedagógica: formação e prática a partir do chão da escola), coordenado pelo Professor Giovanni Codeça da Silva, em sessão do dia 25/10, das 13h30 às 17h30, será apresentada a comunicação sobre a freguesia de Santa Rita.
A comunicação é denominada Caminhos da memória. Eis o resumo:
O sistema escravagista no Rio de Janeiro se desenvolveu em distintos períodos, apoiando-se em diversos equipamentos urbanos hoje conservados como monumentos históricos. Até 1774, o tráfico funcionou na Rua Primeiro de Março. Crescendo a necessidade de espaço no século XVIII para o enterro de pretos novos, a igreja de Santa Rita, situada no Bairro da Vila Verde, assumiu a cura pastoral dos africanos escravizados recém-chegados ao Rio. Com os esforços da Câmara para transferir o tráfico para fora dos muros da cidade colonial, a urbanização se estendeu da Vila Verde para o subúrbio do Valongo, que passou a funcionar como “gueto” escravagista a partir de 1774 a 1831.
Desde os anos 1980, o território da freguesia de Santa Rita recobrou interesse político, histórico, turístico e religioso, passando por um processo de “reafricanização” que culminou com a declaração do Cais do Valongo Patrimônio Mundial em 2017.
Com o objetivo de ajudar estudantes do Ensino Médio a compreender o papel histórico desses marcos, foram organizadas aulas expositivas e atividades de campo no Colégio Estadual Antônio Prado Júnior. Além de aplicar a Lei nº 10.639/2003, a iniciativa serviu à difusão da história pública, graças à participação de estudantes do PIBID e residência.
Os alunos foram previamente instruídos com mapas e depois conduzidos pelas ruas. Posteriormente, outra vez em sala de aula, foi possível debater suas impressões. A avaliação consiste tanto no envolvimento dos em sala, quanto da capacidade de identificar os lugares estudados ao visitá-los.
Campo útil de discussão é a conceituação de “subúrbio”, denominação aplicada ao Valongo desde o século XVIII, e que antecipa em cem anos a problemática das periferias cariocas. Outra vantagem da atividade é ensinar como são construídas as narrativas de memória.